A AUTONOMIA ESTRATÉGICA EUROPEIA TAMBÉM SE CONSTRÓI NA ENGENHARIA E NOS MOLDES

A discussão sobre a autonomia estratégica europeia centra-se frequentemente nas matérias-primas, nas tecnologias críticas e nos produtos finais. Contudo, a capacidade de produzir esses bens depende de uma infraestrutura industrial menos visível: o conhecimento necessário para desenvolver componentes, conceber processos e fabricar as ferramentas que permitem a produção em escala. A indústria de moldes é uma parte essencial dessa infraestrutura.


Um novo produto não chega ao mercado apenas porque foi concebido. Precisa de ser industrializado, testado e produzido de forma consistente, com qualidade, custos competitivos e capacidade de resposta à procura. O desenvolvimento do molde exige engenharia, conhecimento dos materiais, simulação e uma estreita colaboração entre o fornecedor e o cliente. Sem estas competências, a inovação pode ficar limitada à fase de projeto ou depender de capacidades industriais localizadas noutros mercados.


Portugal conquistou reconhecimento internacional neste domínio. A indústria portuguesa de moldes desenvolveu uma combinação de engenharia, precisão, flexibilidade e experiência exportadora que lhe permite responder a clientes de diferentes setores. Esta base pode contribuir para os objetivos europeus de reforço industrial, desde que seja acompanhada por investimento, inovação e uma integração mais profunda nas cadeias de valor estratégicas.


Autonomia estratégica não significa produzir tudo na Europa nem abandonar a cooperação internacional. Significa assegurar que o continente mantém capacidades essenciais, consegue responder a necessidades críticas e evita dependências excessivas em áreas onde a falta de alternativas pode fragilizar a sua economia. A engenharia e as ferramentas de produção devem, por isso, ser consideradas quando se definem prioridades para a reindustrialização, a inovação e o desenvolvimento de novas cadeias industriais.


A indústria portuguesa de moldes está também a transformar-se para responder a esta oportunidade. As empresas procuram reforçar a engenharia e o desenvolvimento de produto, participar mais cedo nos projetos dos clientes, integrar serviços tecnológicos e utilizar a digitalização para melhorar a produtividade. A diversificação para setores como mobilidade, dispositivos médicos, eletrónica, aeronáutica, defesa e embalagem sustentável pode alargar a contribuição do setor para a base industrial europeia.


Esta evolução exige colaboração. A ligação a centros tecnológicos e universidades têm vindo a apoiar investigação aplicada, desenvolvimento de materiais e processos e transferência de conhecimento. A cooperação empresarial existente reúne especializações, aumenta a capacidade de resposta e permite participar em projetos de maior dimensão. A articulação existente entre a associação setorial (CEFAMOL) e entidades públicas é importante para identificar oportunidades e aproximar as competências das empresas das prioridades industriais europeias.


A dimensão financeira não pode ser ignorada. A modernização tecnológica, a qualificação de pessoas e a entrada em novas cadeias de valor exigem capital e capacidade de investimento. É fundamental tornar financeiramente robustas as empresas de forma a assumirem projetos de desenvolvimento e construir relações comerciais de longo prazo. Instrumentos de financiamento adequados e políticas industriais coerentes, são fundamentais para ajudar a criar essas condições, sobretudo para as PME.


A Europa precisa de fábricas, mas também de quem saiba conceber e produzir os meios necessários para as fazer funcionar. A indústria de moldes contribui para essa capacidade e tem potencial para desempenhar um papel ainda mais relevante. Para Portugal, a oportunidade é consolidar uma referência internacional e transformar competências reconhecidas em mais inovação, maior valor acrescentado e uma contribuição duradoura para a autonomia industrial europeia.

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